Querido Portugal,

Porque me tentas tu a mente assaltar,
Dizendo que pelos teus feitos devo gritar,
Dizendo que é suposto glorificar
E engrandecer um povo que decidiu explorar?
Eu cá não vejo nada de bom em ir roubar
E em sair do teu canto para desatar
A pilhar e a subjugar,
Dizendo que especiarias ias trocar,
Quando na verdade só querias escravizar.
Querias dividir o mundo ao meio porquê,
Se de divisões está o mundo cheio
E o cheiro da felicidade pouco se vê?
O cheiro da falsidade é o que se vê
E no meio da sociedade está o “E“, lê.
O teu povo tanto tem no seu alvo “Escrementês”,
Que só canta algo para dizer: “Sou melhor que você!”.
Não me tentes ver a saltar por aí
Dizendo: “há Homens a amar por aqui”.
Porque o meu coração decidiu explorar
E viu que não há igualdade para respirar assim.
Se somos todos iguais a errar,
Porque é que continuamos a fechar
Caminhos e oportunidades de sonhar
A alguns só por terem o azar
De não nascer num lugar
Onde se possa ver o sol raiar?
Devíamos ser todos iguais a amar.
Chega de andar por aí a dizer: “leiam”
Alguns livros que nem fazem aquecer o coração
Se virmos os erros que foram lá escrever com atenção.
Tanta burocracia e no fim do dia
É aquilo que o burro chia que dá na televisão.
Tenho em mim a fobia de que não chegue o dia
Em que os miúdos possam olhar para o que fazia
E pensem criar uma via sem opressão.
Porque é que continuamos a achar
Que nascer num certo lugar
É algo que deva influenciar
A nossa forma de pensar?
Gostava era de um dia poder enxergar
Uma casa mundial com o poder de regar
As mentes novas com formas de amar.

Querido Portugal,

Alma nua

Em 95 cheguei e vi a rua
E o meu olho viu-a
Com um brilho de pura
Abstinência de faces impuras.
Quero não ter de seguir a tua
E mesmo que a minha loucura
Me afaste de onde se agrupa,
Quero não ter de tentar uma
Vontade de outro porque crua
É a minha ansiedade futura.
Chamam a vida de puta
E resignam-se incultas
As pessoas e a multa
É uma verdade obscura
Onde a minha ocupa-
Ção é menos que nula.
Quero uma vida onde “puta”
Não seja o que se rotula
À mulher que vive astuta
E aproveita pudica
Essa vida que é única.
Levem-me então p’ra lua
Para que a minha alma nua
Possa desfrutar da sua.

Alma nua

ESCadaS do Inferno

Eu nas
Praxes e nas
Quintas-feiras,
Parvo fui, mas
Vi que até nas
Artes mais puras
Há almas sujas.
Criei eu por lá, meras
Esperanças e deveras
Que as lembranças, essas,
Para além de tantas, são peças
De interditas remessas,
Mas que para a vida levas.
E lá fui eu, bobo e de mangas arregaçadas
Para tentar encaixar entre almas ameaçadas,
Mas só vi eu, todo um leque de escolhas erradas
E saí a acenar com as malas arrumadas
Para rumar a uma vida sem cartas seladas
Porque só não vive quem lê bíblias sagradas.

ESCadaS do Inferno

Escrita perdida

Esses lemas da sociedade
Deixam triste a minha vontade
De lutar feliz contra a saudade,
Mas para quê tentar não ser?
E mesmo que chegue sempre
Tarde a esse entardecer,
Mesmo que se inventem coisas
Para se separarem as pessoas,
Vou querer que não se inventem máscaras
Para estas se encararem entre as outras.
Espero nunca vir a achar
Que dinheiro será felicidade
E se já tenho de chorar
Sorrateiro nesta sociedade
Só quero que sorrir seja o standard.
E porquê de um país ser estandarte
Se só quero fazer da vida um stand de arte?
Quero uma boa vida, pois então
E que morram a Eva e o Adão
Porque não amarro o meu coração
A acreditações que vêm de antemão
Porque só servem para nos tapar a visão.

Escrita perdida

Grito

Se a minha terra natal “então” estranha
E acaba por ser um mero “atão” que entranha,
O que vivo eu se não uma artimanha
A que hoje chamam vida e amanhã
Vale pouco mais que uma chama
Que faz da chuva a sua cama?

O Homem inventa Deuses numa semana
E agora esquece-se e os feitos destes declama.
Eu quero é que o mundo lave da sua cara a lama
Que impede os miúdos de nascer sem alma,
Porque quem nasce no meio da eterna trama
Terá sempre muito porquê que não se acama.

Porque é que se fez da mulher uma dama
E o Homem só vai quando por ele se chama?
Porque é que do vender se fez uma cama
Se a fé do trabalho só nos engana?
E porquê tentar entender de forma profana
Se o mundo só está de pé quando se ama?

Grito

A mensagem | vol.4

Nascemos para interpretar palavras
E outras tantas frases criadas
Para nos tornar pessoas parvas
E por vezes surgem sentimentos,
Medos e tantos tormentos,
Que nos tornam pouco mais que menos.
Acham esses Homens, sinto,
Que têm o direito de não se ofender.
Pensam deslumbrados esses Homens, sinto,
E acham-se capazes de não morrer.
Agem tenazes para não se perder,
Mas perdem-se sem as verdades ver.
Não sou igual a esses Homens, minto,
Também caminho direito a morrer
E ainda me condeno a viver
Prisioneiro de só eu me saber.
Viver neste mundo sem ser rabugento
E sem gritar o que se tem no ventre
A mim só me deixa atormentado,
Mas tento nunca me resignar por dentro
A algemas que me deixem acomodado.
Se é para ser algo incomodado
Que seja por uma crescente vontade
De ver o mundo com o alvo virado
A um futuro que seja sempre passado
A fazer sorrir os que mal têm passado.
Porque é que foram os humanos
Gerar esta sociedade
Se já somos todos obrigados
A lidar com a saudade?
E porque é que correm os humanos
Atrás de histórias de nada
Se já vivem todos fartos
Desta rocha abandonada?
Só queria que fossem os humanos
A criar credibilidade.
Se já existem tanto parvos
Porquê dar continuidade?

A mensagem | vol.4

A mensagem | vol.3

Ó vida,
Porque jogo eu este xadrez
De fintas que alguém fez
Antes de eu sequer nascer?
Ó vida,
Porque é um puto torturado
Para chegar a algum lado
Se nem pediu para nascer?
Cá dentro tenho uma dúvida:
Como é que a gente dá a vida
Por livros com tinta a desvanecer?
Os jovens constroem castelos
E se cai o nevoeiro, nem vê-los.
Ouve-se o desenroscar das brocas,
Vê-se o desenrascar de vidas tortas
E lá vem o traiçoeiro envolve-los.
Vão se embora porque querem lá ficar,
Vêem bola porque algo querem ganhar
E os seus AVCs são nos cotovelos.
Há lata e até muito lençol
Para apagar a lâmpada do Homem
Que até então o sapo engole.
A vida não tem nome nem
A justiça devolve o que tem
E a liberdade que me envolve
Não é dessa que por aí promovem.
Algo que sempre me intrigou:
Como é que tanta gente se entregou
À guerra que se começou antes
Por alguns se acharem importantes?
Conquistam-se os terrenos p’ra quê
Se ninguém para para os ver?
Formatam-se os pequenos porquê
Se todos vivemos para morrer?
Algo que sempre me perguntei:
Como é que querem que acredite e nem
Há um que pense o suficiente
Para não tentarem vergar-me a crente?
Quero é um mundo que sinta dentro
E quero que os miúdos sintam o vento.
Que nunca se verguem a criações humanas,
Pois os nossos erros também estão nelas.
Vós que seguem os deuses há semanas,
Sois os que pensam que vêem, mas
Porque matam os inocentes com bombas?
Ó gente que o mundo anda a destruir,
Não olhem lendas, mas sim o coração.
Quero que os miúdos andem a sorrir,
Não coloquem vendas na sua visão.
E para que os surdos comecem a ouvir
Não metam essas merdas na televisão.

A mensagem | vol.3