Linhas sobre linhas

Tanto que ignora e esfola o que está fora do seu grupo,
Quer seja por bola, esmola, por um livro inculto
Ou até simplesmente por amar alguém do seu sexo.
Mas não mudo o que penso, apenas me preocupo
Perplexo com um mundo repleto de inculto sem escrúpulo
E que desenrola o seu pensamento sem nexo.

Mudo penso: gostava de entender a identidade
Que tantos guardam em verdes e encarnados
E noutras tantas preces de passado ensanguentado
Que as gentes encaram antes do ver da verdade.
Mas segundo o meu achar desajeitado, não vejo qualidade
Em apontar o dedo sem antes o apontar à minha realidade.

Alheio nasces e antes de ousado pensares
Atiram-te de antemão: “És daqui. Sê daqui, então!”
Primeiro: Essas frases não te tornam dono da razão.
Não tens o direito de fazer pazes com a discriminação
E de te achares conceituado na arte de preconceituares.
Essas pessoas também são humanos. Sê humano, então!

 

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Linhas sobre linhas

2017

É 2017, o mundo aquece, o gelo derrete
E o puto esquece o tempo que perde
Na porcaria da Internet.
O lixo reflecte o Homem que o gere
E a rua escurece com o medo que rege
A maioria da plebe.
A Terra gira, mas porque é que se cria
Ira se só lágrima brilha na cara da cria
Que nasceu onde não devia?
Tanta merda bonita, ‘tão porque é que se evita
Rir e só é página de capa a raça vazia
Que prometeu o que não faria?
Opinam-se falsas preces e tu finges
Que não percebes e ainda as as segues
Nessa tua rotina de cego
E eu não nego o medo que carrego
Por um “seres tu” valer menos que um ego
Nessa vida que me pedes tu.
É 2017 e tu, ainda que muito inculto,
Devias ter inscrito que esforço conjunto
É o que elimina o menos arguto
E ainda que mudo ou menos revoluto,
Lembra-te que todo o que só coça o seu escroto,
Não é de todo o que cria um mundo novo.

2017

Deixo-te mais um poema de versos da minha idade,
Mais um esquema de trechos, uma verdade
Que só eu busco no meio da insanidade
De um eu escuro que nem o cheiro da vaidade
Procura e nem cheio de realidade
Se mistura no meio da sociedade.
Deixo-te mais um poema das minhas vontades,
Mais um par de problemas para tu pensares
E para aprenderes que para conversar
Não basta esperar a tua vez de falar.
Sei que nunca esperas a tua vez de errar,
Mas falta-te não esperar para pensar
E ousar amar sem preconceituar.
Falta-te parar para percepcionar
O ar e não ser mais um a sujar
Só porque tantos se estão a cagar.
Deixo-te aqui mais um poema para esperançar
Um dia poder enxergar o mundo a reparar
Que somos todos melhores a cooperar.
Basta correr bem uma vez p’ra não se falhar,
Basta correr mal uma vez p’ra nada restar,
Basta ressalvar que este planeta é p’ra salvar.

Querido Portugal,

Porque me tentas tu a mente assaltar,
Dizendo que pelos teus feitos devo gritar,
Dizendo que é suposto glorificar
E engrandecer um povo que decidiu explorar?
Eu cá não vejo nada de bom em ir roubar
E em sair do teu canto para desatar
A pilhar e a subjugar,
Dizendo que especiarias ias trocar,
Quando na verdade só querias escravizar.
Querias dividir o mundo ao meio porquê,
Se de divisões está o mundo cheio
E o cheiro da felicidade pouco se vê?
O cheiro da falsidade é o que se vê
E no meio da sociedade está o “E“, lê.
O teu povo tanto tem no seu alvo “Escrementês”,
Que só canta algo para dizer: “Sou melhor que você!”.
Não me tentes ver a saltar por aí
Dizendo: “há Homens a amar por aqui”.
Porque o meu coração decidiu explorar
E viu que não há igualdade para respirar assim.
Se somos todos iguais a errar,
Porque é que continuamos a fechar
Caminhos e oportunidades de sonhar
A alguns só por terem o azar
De não nascer num lugar
Onde se possa ver o sol raiar?
Devíamos ser todos iguais a amar.
Chega de andar por aí a dizer: “leiam”
Alguns livros que nem fazem aquecer o coração
Se virmos os erros que foram lá escrever com atenção.
Tanta burocracia e no fim do dia
É aquilo que o burro chia que dá na televisão.
Tenho em mim a fobia de que não chegue o dia
Em que os miúdos possam olhar para o que fazia
E pensem criar uma via sem opressão.
Porque é que continuamos a achar
Que nascer num certo lugar
É algo que deva influenciar
A nossa forma de pensar?
Gostava era de um dia poder enxergar
Uma casa mundial com o poder de regar
As mentes novas com formas de amar.

Querido Portugal,

Alma nua

Em 95 cheguei e vi a rua
E o meu olho viu-a
Com um brilho de pura
Abstinência de faces impuras.
Quero não ter de seguir a tua
E mesmo que a minha loucura
Me afaste de onde se agrupa,
Quero não ter de tentar uma
Vontade de outro porque crua
É a minha ansiedade futura.
Chamam a vida de puta
E resignam-se incultas
As pessoas e a multa
É uma verdade obscura
Onde a minha ocupa-
Ção é menos que nula.
Quero uma vida onde “puta”
Não seja o que se rotula
À mulher que vive astuta
E aproveita pudica
Essa vida que é única.
Levem-me então p’ra lua
Para que a minha alma nua
Possa desfrutar da sua.

Alma nua

ESCadaS do Inferno

Eu nas
Praxes e nas
Quintas-feiras,
Parvo fui, mas
Vi que até nas
Artes mais puras
Há almas sujas.
Criei eu por lá, meras
Esperanças e deveras
Que as lembranças, essas,
Para além de tantas, são peças
De interditas remessas,
Mas que para a vida levas.
E lá fui eu, bobo e de mangas arregaçadas
Para tentar encaixar entre almas ameaçadas,
Mas só vi eu, todo um leque de escolhas erradas
E saí a acenar com as malas arrumadas
Para rumar a uma vida sem cartas seladas
Porque só não vive quem lê bíblias sagradas.

ESCadaS do Inferno

Escrita perdida

Esses lemas da sociedade
Deixam triste a minha vontade
De lutar feliz contra a saudade,
Mas para quê tentar não ser?
E mesmo que chegue sempre
Tarde a esse entardecer,
Mesmo que se inventem coisas
Para se separarem as pessoas,
Vou querer que não se inventem máscaras
Para estas se encararem entre as outras.
Espero nunca vir a achar
Que dinheiro será felicidade
E se já tenho de chorar
Sorrateiro nesta sociedade
Só quero que sorrir seja o standard.
E porquê de um país ser estandarte
Se só quero fazer da vida um stand de arte?
Quero uma boa vida, pois então
E que morram a Eva e o Adão
Porque não amarro o meu coração
A acreditações que vêm de antemão
Porque só servem para nos tapar a visão.

Escrita perdida