Para ti, Abílio 

Lanças um olhar torto à subjetividade
De um mundo que amas e condenas,
Desperta-te a arte dos roucos,
Despedaça-te amar os outros
E lanças um olhar morto à vontade
Do miúdo que levas nas entranhas.
Mas porque é que com tanto dentro
Sentes que te falta algo sempre?
Se te falta algo, sente!
E se sentes errado o sentimento
Aponta primeiro a mente
Ao que és primeiramente
Antes de apontares o dedo.
Saber se é errado o vento
Sem saltar do quente p’ró frio
É como ser amado por dentro
Sem se amar a si próprio.
Então ama-te. Sempre!

Para ti, Abílio 

AMMC

Se eu sou a figura do meu quadro,
Porque é que o enquadramento
Que me afiguram não é pedaço
Daquilo que é o meu alento?
Deixo que as questões me afrontem
Desde muito cedo.
Nunca gostei de pão de ontem
Desde puto e sempre.
Este olhar cansado não se ouve nem
Reflecte o puto de sempre.
Eu quero ser puto sempre!
Não descontar esses 23,
Poder levantar os meus porquês,
Não ser mudo como vocês,
Eu quero ver tudo sempre!
E para poder acreditar
Num mundo mais concreto,
Preciso de poder desfrutar
De um mundo mais completo.
A Minha Mensagem Comanda
A mudança que quero ver no ar,
Mas enquanto essa escola ensinar
Que por números devo ser alarvo,
O mundo dança e quero vê-lo calar
Porque eu não faço figura de parvo.

AMMC

22

Este cabelo de chinês que se vê
Cobre uma mente que pouco se lê.
Essa insanidade louca
Que concede a mim próprio
Essa necessidade rouca
Por eu não ceder a nenhum sóbrio
Essa chave que me abre a boca.
Esse medo de alguém me saber
Como só eu me sei,
Vem desse dedo que vem sem me saber
Como só eu me sei.
Este olhar vazio não vê mal,
Mas esse mundo frio não vê igual
E se querem completar-me,
Já vão tarde demais.
E se quiserem matar-me,
Esta tarde não, há mais.
Estes joelhos que eu usava demais,
Esses desejos que eu tinha a mais,
Destruíram-se cedo demais,
Mas são eternamente parte de
Um rapaz que quer sonhar mais.

22

A mensagem | vol.2

Vim ao mundo humano, mas a que preço
Se já vi de tudo e a pouco estou preso?
Vou crescendo desumano e reconheço
Que pelo estranho me interesso,
Mas que tenho tamanho apreço
Pelos que usam sorrisos como adereço.
Ouve muito o humano, mas vê-se
Que vê muito com pouco interesse.
Vou escutando o q’diz o humano, mas desse
Compasso abstenho-me porque só vejo se
Tapar o olhar que tenho desde
Os tempos em que sorria sem stresses.
Corrói-lhes o amor e o desporto
E amam uma só vez e pronto.
Amarram seus barcos a um porto
E querem que eu os siga pronto
A meter um ponto final na vida.
Corrói-lhes a alma se o clube perde
E esquecem-se eles que a pátria fede.
Aquecem os corações com efémeras febres
E querem que eu os siga como lebre
Que acaba a chegar ao final perdida.
Corrói-me mais o facto
De haver mais dinheiro que factos
E de haver mais dinheiro p’ra fatos
Do que p’ra fazer melhores actos.
Este mundo gira por valores
E no entanto não vejo nenhum.
Dizem que há por aí muitos amores
E portanto não quero só um.
Que se ouçam mais esses jovens,
Se quiserem falar.
Que sonhem mais esses Homens,
Se quiserem sonhar.
Os que ousam mais, esses jovens,
Deixem-nos ousar.
Os que destroem mais, esses Homens,
Não os deixem errar.
Se a vida se entortar, pelo menos tentei
Mas para se endireitar, pelo menos gritei.
E aqui deixo uma mensagem
Para servir de engrenagem
A menos gente selvagem.
E ó minha gente louca,
Ouçam-me o coração.
Façam uma Terra nova,
Uma sem corrupção.
E se querem ser pessoas novas,
Sorriam mais, então.

A mensagem | vol.2

Vicissitude

A vida tem apenas quatro letras
E eu escrevo-a com vinte vontades.
As pessoas apenas têm umas quantas peças
E eu quero-as com múltiplas saudades

Enquanto algumas usam máscaras
Para se misturar com os demais
E esquecem-se de suas reais caras.

E porque é que ter um só sonho sabe mal
E sonhar muito acaba a saber igual?

Um Homem não foi feito para não querer mais.

Vicissitude

Toxic Fall

Deixa-me levar-te ao mundo
Porque este visitar-te é nulo
E porque este gritar-te é mudo.
Só no tempo da construção
É q’era tempo do ucraniano
Circular de tijolo na mão.
No trabalho a fazer massa
Para em casa a ter.
Na verdade a ver que passa
A vida sem a viver.
Agora é tempo de evolução.
Agora é q’é tempo do humano
Se bajular e querer mais. Não!
Aqui o jovem acelera motas,
Desacelera as botas
E pouco procura conhecer.
Aqui o velho pensa formatado,
Dispensa ser iluminado
E pouca loucura quer ver.
É com tristeza que sei
Que este miúdo que sou vem
De uma terra obsoleta
Onde a gente só se completa
Com a vida de outrem.
E se estavas a pensar
Em gostar de algo d’homem,
Vê se está na lista de antes
Porque se estavas a tentar
Acreditar em algo d’Homem
Vê se está na lista dos três grandes.
És livre, mas pensa-o rouco.
Acredita em Deus.
Se não: “olha o louco”.
Vive, mas tenta-o pouco.
É q’aqui as personalidades das crias
São as mesmas dos pais
E qualquer sonho que crias
É considerado sonhar demais.

Toxic Fall

Tercenata

Se este mundo é dos roucos,
Vive comigo aquilo que poucos
Ousam dizer por se acharem loucos.

Grita comigo em plenos pulmões,
Arranha-me quando deste corpo dispões
E escreve comigo versos nus colchões.

Enche com o teu cheiro meus pulmões,
Morde bem este ombro de que dispões
E deixa que me vá contigo nus colchões.

E se este mundo é-te pouco,
Sacia comigo desejos de louco
Até que este fogo acabe rouco.

Tercenata